Fat Monica e a tolerância na TV
Eu estava assistindo TV de madrugada e começou um episódio de Friends. Era uma daquelas histórias de flashback, que mostra como cada personagem era “no passado”. Monica, interpretada pela Courteney Cox, era gorda no passado. E não faltaram piadas de comida: ela tinha duas barras de chocolate no bolso sempre, bastava uma rosquinha pra ela se distrair, enfim. No “presente” do seriado, Monica mudou a forma de lidar com a comida, virou chef e se mantém magrinha. Eu acho que Friends acabou em 2004. Foram dez temporadas, portanto dez anos. Eu não sei de qual temporada era esse episódio que eu vi, só sei que Rachel e Phoebe estavam de saias longas, e fiquei tentando lembrar que moda foi essa… Enfim, quando começou a cena com a Monica “gorda” (Courteney Cox usava enchimentos e maquiagem), eu comecei a ficar cada vez mais incomodada com a forma que a personagem era tratada. E lembrei imediatamente da Sookie, do seriado Gilmore Girls, interpretada por Melissa McCarthy. Duas personagens com mais ou menos o mesmo corpo, só que a Monica é bizarra e cômica, e a Sookie é bonita e talentosa. Gilmore Girls estreou em 2000. Impressionante como uma pequena diferença de anos marca uma mudança na tolerância a gordas em seriados de TV.
Eu acho que lembrei da Sookie porque ela também era chef.
Aí fiquei tentando lembrar de um seriado com uma personagem protagonista gorda… Tem Roseanne, que estreou em 1989 e teve nove temporadas. Me corrijam se estiver errada (eu não tenho mais TV em casa), mas parece que hoje em dia, os papéis para atrizes gordas são apenas das amigas, e não das protagonistas. Mas pelo menos as atrizes são gordas mesmo, e não precisam de enchimentos e maquiagens.
Atualização: Como pude esquecer o Drop Dead Diva? Já está na segunda temporada, e é a história de uma modelo magra que morre e volta no corpo de uma advogada gorda. É cheio de clichês: a modelo levava uma vida superficial e, quando reencarna no corpo da advogada, ganha também a inteligência dela, etc. O clássico Cérebro X Beleza.
5 comments 02/11/2009
Roupas curtas e o caso da Uniban
E por falar em roupas curtas. Uma aluna da Uniban de São Bernardo do Campo teve de ser escoltada por policiais para conseguir voltar pra casa, no dia 22. Ela foi ameaçada de estupro por alunos da faculdade, e se trancou numa sala para fugir. No vídeo do link, dá pra ver a comoção que o episódio causou, e os gritos de “Puta! Puta! Puta!” da escola inteira. A lógica dos alunos é: ela estava usando um vestido curto, portanto é puta, portanto merece ser ameaçada de estupro?
Atualização: Comunicado oficial da Uniban.
10 comments 28/10/2009
Vem chegando o Verão…
Na cidade onde eu nasci, não tem essa de verão e inverno. É sempre verão. Mas aqui em São Paulo, eu consigo ficar meses inteiros usando calça e casaco. Eu gosto, mas cansa. Então eu estou feliz em começar a desenterrar minhas roupas de verão. Principalmente as saias, porque eu não consigo usar saia com meia-calça no frio. Não dá, não me esquenta. Daí que eu tava arrumando meu armário, e achei o meu short cáqui super confortável, e lembrei de um lindo sábado de sol, eu andando na Paulista, esperando o ônibus para ir a um museu, e reparei que tinha um cara dentro de um ônibus… me filmando. Bom, pelo menos, o celular estava apontado em minha direção. Mas não tinha certeza. O ônibus saiu e eu fiquei sem entender nada. Uma busca no Youtube tirou minhas dúvidas: o cara tava filmando a minha bunda. Eu nunca achei o meu vídeo, mas fiquei uma tarde inteira denunciando os milhares vídeos de bundas e peitos e etc filmados contra a vontade de suas donas. Precisa falar que não adiantou nada?

Entre um short e uma bermuda, escolhi uma bermuda pra usar hoje. E fiquei olhando, triste, pra minha bermuda de lycra que eu nunca mais usei pra ir à academia, porque ela é um imã de “cantadas”. Eu não sei bem que palavra usar. Porque cantada, paquera, é uma coisa. Mas “mexer” na rua, é outra. Em inglês, é catcall. Eu sei que tem mulher que gosta e que considera um “elogio”. Mas eu não considero, não. E eu não acho que os homens que fazem catcall consideram um elogio, também. E oras, gostando ou não, eu tenho o direito de ir à padaria, à academia, ao trabalho, sem ter de ouvir “gostosa” de um cara que eu não conheço, que não quer me conhecer, e nem ao menos quer fazer as coisas que ele sussurra no meu ouvido, porque só falar já basta pra inflar o seu ego e se impor como homem sobre uma mulher. Eu não to nem aí pras crises existenciais desses homens! E eu não vou agradecer a ele por me lembrar do meu lugar enquanto mulher na nossa sociedade, eu só quero ir à farmácia e voltar pra casa!
Mas eu quero voltar a usar o meu short. E as minhas saias. E a bermuda de lycra. Então eu pergunto, leitoras, como faz? O que vocês fazem pra evitar catcalls? E quando acontece, vocês reagem, ou figem que não ouviram? Vocês gostam? Vocês não se importam? Vocês já arrumaram briga?
8 comments 26/10/2009
Entre Significados
No último post, eu disse que “Eu escolhi o dicionário online Michaelis porque suas definições podem ser conferidas por qualquer um, é só entrar no site. Mas acredito ser fácil encontrar esse padrão em outros dicionários também.” Eu não acho que o dicionário que usei é machista, nem estou aqui falando de censura, etc. Eu estou chamando atenção aos significados que nós damos a essas palavras.
A gente fica falando que gênero é uma construção social, que varia, etc., mas o interessante do livro Manliness and Civilization é que ele vai lá num período da história e isola o momento de criação de um novo significado. Ele exemplifica lindamente a transformação de um conceito de gênero, na virada do século XX nos EUA. É a transição da cultura Vitoriana que valorizava a hombridade, o autocontrole, a nobreza de caráter, para uma outra cultura de classe média que passa a valorizar a virilidade e a masculinidade, a agressividade, a força. A autora define Gênero como um processo histórico e ideológico, dinâmico, contínuo, contraditório, que nós podemos reforçar ou ressignificar.
Neste outro post, sobre o ensaio fotográfico sobre Masculinidade do Chad States, podemos apontar várias ideologias de gênero.
Embaixo de cada foto, tem uma citação dos modelos falando da própria masculinidade. E é aí que a gente vê como a palavra masculino tem um significado diferente, pra cada pessoa. Tem gente que diz que a masculinidade é inata. Tem gente que diz que é uma atitude, uma forma de agir, de se portar. Tem gente que iguala masculino a homem, e a macho. Tem gente que relaciona a competitividade. A roupas masculinas. A se sentir bem em seu próprio corpo. A homens gays. A “cuidar das mulheres”. Engraçado que muitos estão usando terno.

Eu acho o terno um símbolo masculino interessante. Apenas homens usam terno. Ok, existem ternos femininos. Mas são ternos femininos, ou terninhos, não são só ternos. Não são o terno original. O terno original é um símbolo masculino. Eu vejo também como um símbolo de classificação social. E, se for pra escolher entre hombridade, virilidade e masculinidade para associar a um terno, eu acho que escolho hombridade.

Já a máscara de luta-livre (feita com duct-tape?), eu associaria mais a masculinidade ou virilidade. Bederman, no livro, fala bastante do crescimento da popularidade do boxe e das lutas na virada do século XX, nos EUA, porque é justamente um período em que a agressividade passa a ser valorizada e celebrada como uma característica inerente ao sexo masculino.

Podemos concordar que o lar é um símbolo feminino, embora seja esperado hoje em dia que os homens também cuidem da casa e da família? Uma garota-propaganda de produtos de limpeza que não é dona-de-casa (nem empregada ou patroa) mas sim uma mulher com um emprego masculino, uma encanadora, pode ajudar a reconstruir a feminilidade. Porque estamos dizendo que ser feminino (ou efeminado?) pode ser também ser encanador. Mas, pra mim, o anúncio quase faz isso, chega na hora e não faz. Porque coloca a Josephine também de avental de dona-de-casa e reforça conceitos tradicionais da feminilidade. Eu acho que a Josephine é híbrida: é feminina (porque cuida da casa) e masculina (porque trabalha como encanadora) ao mesmo tempo. E não feminina, porque cuida da casa e também porque trabalha como encanadora.
6 comments 18/10/2009
Virilidade, Masculinidade e Hombridade
Oi, voltei.
Eu to lendo esse livro. E já na introdução a autora faz uma distinção entre as palavras manliness, manhood e masculinity. Parte do argumento dela é que, na época que ela estuda (virada para o século XX nos EUA), as palavras manliness e manhood eram usadas muito mais que masculinity, e inclusive tinham significados diferentes. (Hoje, elas podem ser usadas como sinônimos.) Aí fui procurar virilidade, hombridade e masculinidade em dicionários de português, e olha o que achei:
masculinidade
mas.cu.li.ni.da.de
sf (lat masculinitate) 1 Qualidade de masculino ou másculo. 2 Virilidade.masculino
mas.cu.li.no
adj (lat masculinu) 1 Que pertence ou se refere ao sexo do varão ou dos animais machos. 2 Próprio de homem, varonil. 3 Gram Qualificativo do gênero dos nomes que designam entes masculinos ou objetos considerados como tais. 4 Gram Diz-se das palavras ou nomes que, pela terminação e concordância, designam seres masculinos ou que como tais se consideram.virilidade
vi.ri.li.da.de
sf (lat virilitate) 1 Qualidade de viril. 2 A idade viril, isto é, aquela que vai da adolescência à velhice. 3 Vigor, energia.viril1
vi.ril1
adj m+f (lat virile) 1 Relativo ou pertencente ao homem ou varão; másculo, varonil. 2 Próprio de homem. 3 Próprio de um caráter varonil; esforçado, corajoso. 4 Enérgico. 5 Diz-se da idade que vai da adolescência à velhice.varão1
va.rão1
sm (corr de barão) 1 Indivíduo do sexo masculino; homem. 2 Homem adulto que chegou à idade varonil; homem feito. 3 Homem respeitável; homem sábio. 4 Homem corajoso, esforçado, valoroso. 5 fam Homem que não se deixa dominar pela mulher. adj Que é do sexo masculino: Filho varão. fem: varoa e virago.varão2
va.rão2
sm (vara1+ão2) Vara grande de ferro ou de outro metal.hombridade
hom.bri.da.de
sf (cast hombredad) 1 Aspecto varonil. 2 Corporatura. 3 Nobreza de caráter. 4 Grandeza de ânimo. 5 Desejo de ombrear com alguém.
Eu vi que existe uma forma feminina para varão. A definição do dicionário é a seguinte:
virago
vi.ra.go
sf (lat virago) 1 Feminino de varão. 2 Mulher esforçada, destemida. 3 Mulher muito forte e de maneiras varonis; marimacho. sm Cabo, corda.
Parece que virago não é simplesmente uma mulher forte, mas uma mulher com força característica do varão. Uma mulher macho. Só por diversão, resolvi procurar o significado de feminino:
feminino
fe.mi.ni.no
adj (lat femininu) 1 Próprio de mulher ou de fêmea. 2 Relativo ao sexo caracterizado pelo ovário, nos animais e nas plantas. 3 Relativo às mulheres. 4 Gram Qualificativo do gênero que indica os seres fêmeos ou considerados como tais.
Nenhum juízo de valor aí. Vamos tentar efeminado?
efeminado
e.fe.mi.na.do
adj (lat effeminatu) 1 Caracterizado por qualidades mais próprias a mulheres do que a homens. 2 Que tem modos de mulher. 3 Excessivamente delicado; mole. 4 Pusilânime. 5 Voluptuoso.
Interessante que, enquanto viril é algo cheio de energia, efeminado é delicado, desanimado, mole. Além disso, vemos aqui a primeira referência sexual, nessas definições: voluptuoso.
(Pensando bem, a “idade viril, isto é, aquela que vai da adolescência à velhice” pode ser assim definida por ser a idade fértil do homem?)
Podemos fechar essa reflexão com as próprias definições de “homem” e “mulher”. Aconselho aos mais sensíveis e com doenças de coração a pararem de ler agora.
homem
ho.mem
sm (lat homine) 1 Ser humano em geral; o homem é um mamífero bípede, dotado de inteligência e linguagem articulada. 2 Indivíduo da espécie humana. 3 Ser humano do sexo masculino. 4 A humanidade. 5 pop Marido ou amante. 6 Aquele que procede com madureza, que tem experiência do mundo. 7 Aquele que possui em alto grau os distintivos da hombridade: Só ele era homem para enfrentar tal perigo. 8 pop Espécie de jogo de rapazes. 9 Pessoa de quem se trata. Abominável h. das neves: animal supostamente existente nas alturas do Himalaia e comumente tido por um urso. H. às direitas: homem honesto, virtuoso. H.-base, Mil: sargento, cabo ou soldado, pelo qual uma tropa regula a marcha ou alinhamento. H. da capa preta: pessoa difícil de distinguir entre os demais, desconhecida, indeterminada. H. da lei: magistrado, advogado. H. da rua: homem comum. H. das arábias: excêntrico ou ratão; que não se pode tomar a sério. H. das botas: o mesmo que homem de botas. H. de ação: homem ativo, enérgico, empreendedor. H. de antes quebrar que torcer: intransigente em pontos de dignidade; de caráter firme ou íntegro. H. de baixa extração: homem de baixa esfera ou nascimento. H. de bem: homem de reto proceder; honesto, bondoso. H. de botas: homem cuja chegada se anuncia, mas que nunca aparece. H. de conta, peso e medida: excessivamente honesto e meticuloso em suas ações e negócios. H. de cor: indivíduo negro ou mulato. H. de Deus: piedoso, santo. Exclamativamente, significa enfado. H. de duas caras: de atitudes ambíguas, falso, dúplice, sem palavra. H. de estado: estadista. H. de fibra: homem que corajosamente enfrenta adversidades e perigos. H. de leis: jurisconsulto, legista. H. de letras: que se dedica ao estudo da literatura e das ciências. H. de letras gordas: que lê e escreve muito mal; sem ilustração, sem educação. H. de maus bofes: homem de maus fígados. H. de maus fígados: perverso. H. de Neandertal: tipo ou raça de homem do Paleolítico médio (Homo neanderthalensis), reconstituído de restos de esqueletos, encontrados primeiro no vale de Neandertal, na Alemanha Ocidental, e depois em muitos lugares da Europa, Norte da África e Ásia Ocidental. Distinguia-se por uma estatura atarracada, musculosa, antebraços e parte inferior das pernas curtos, crânio extremamente dolicocefálico, projeção extraordinária da região occipital, enormes arcadas superciliares, testa baixa e retrocedente e mento subdesenvolvido. H. de negócios: amante de ganho; negociante. H. de palavra: o que cumpre o que diz ou promete; que não mente. H.-de-palha: indivíduo assalariado que ocupa posição de responsabilidade, apenas na aparência, para encobrir o verdadeiro dirigente; testa-de-ferro. H. de poucas palavras: homem reservado, que fala pouco; desconfiado. H. de pulso: homem robusto, de grande força física; homem enérgico, que sabe se impor. H.-Deus: Jesus Cristo. H. do mundo: freqüentador da alta sociedade, da qual tira os hábitos e maneiras. (…) H. reto: homem honesto e virtuoso, que segue as leis da justiça e eqüidade. H.-sanduíche: que ganha a vida andando pelas ruas com dois cartazes de anúncio, um pendente no peito, outro nas costas. Seja homem: expressão com que se manda alguém reagir, ou suportar com coragem um mal.mulher
mu.lher
sf (lat muliere) 1 Feminino de homem. 2 Esposa. 3 Pessoa adulta do sexo feminino (opõe-se a menina ou rapariga). 4 Mulher da plebe ou das classes inferiores (por oposição a senhora ou dama). 5 Homem efeminado, mulherengo. 6 Certo jogo popular. M. à-toa: prostituta. M. bará: a que se entrega facilmente. M.-dama: o mesmo que meretriz. M. da rótula: marafona. M. da rua: meretriz. M. das onze letras, pop: alcoviteira (porque a palavra alcoviteira tem onze letras). M. da vida: meretriz. M. de armas: o mesmo que virago. M. de casa: a que administra bem uma casa e cuida com economia e previdência da vida e educação da sua família. M. de duas cores, Folc: fantasma que, segundo a crendice popular de Minas Gerais e Norte de São Paulo, atravessa as estradas e caminhos em dias claros. A sua bicoloração varia segundo o informante. M. de ferreiro, gír: cadela. M. de governo: o mesmo que governante; mulher de casa. M. de má nota: prostituta. M. de soldada: mulher que serve outrem por dinheiro. M. de virtude: adivinha, bruxa, feiticeira; mezinheira. M. do fado: meretriz. M. do fandango: meretriz. M. do piolho, Folc: personagem de conto popular que representa a mulher contenciosa e teimosa. M. durázia: mulher que já tem certa idade sem ser velha. M. errada: a desonesta, mal comportada, transviada. M. fatal: o mesmo que vamp. M.-homem: lésbica. Pl: mulheres-homens e mulheres-homem. M. logrativa: mulher galanteadora; a que procura ser agradável. M.-macho: a) mulher que apresenta qualidades e coragem de homem; b) lésbica. Pl: mulheres-machos. M.-objeto: mulher considerada como mera fonte de prazer. Pl: mulheres-objetos e mulheres-objeto. M. perdida: prostituta. M.-pobre, Bot: planta bignoniácea (Jacaranda cuspidifolia). Aum: mulheraça, mulherão, mulherona.
Enquanto a maioria dos exemplos para mulher são carregados de juízos de valor negativo, e muitos significam apenas “prostituta”, os de homem se referem a características humanas universais, que podem ser aplicadas também a mulheres (homem de cor, homem de poucas palavras). Além disso, a “nobreza de caráter” permeia os exemplos dados pelo dicionário (homem de palavra, homem do mundo). Eu escolhi o dicionário online Michaelis porque suas definições podem ser conferidas por qualquer um, é só entrar no site. Mas acredito ser fácil encontrar esse padrão em outros dicionários também.
Continuação: Entre Significados
14 comments 12/10/2009
O discurso da má vontade
Arrematando o assunto das ecobags, eu acho que o ponto central deve ser os três “erres”, Reduzir, Reutilizar, e Reciclar. Porque o tom da discussão a respeito da relevância das ecobags (além de ler a respeito em duas colunas de revistas diferentes, e em um blog, também li em outros lugares, outros blogs e participei de algumas conversas) quase sempre tem passado por uma ansiedade perfeccionista aliada a uma má vontade. Assim: Se eu passar a usar ecobags, mas continuar embalando meu lixo com saco plástico, então nada disso faz sentido e, portanto, o esforço não vale à pena. Ou: Como ecobags são caras [nem todas], e sacos de lixo biodegradáveis são caros [é verdade], nada disso faz sentido e o esforço não vale à pena. Ou: Se eu começar a usar ecobags, mas continuar a comprar o meu doce preferido que é vendido em uma embalagem de isopor, então nada disso faz sentido, etc. etc. etc. Não é preciso se tornar um perfeito ecologista, de uma hora pra outra. Eu nem sei se isso existe, aliás. Sugiro começar por um dos erres e descobrir os seus limites.
E sim, é um esforço. Quando eu comecei a usar sacola de feira para ir ao supermercado, fui barrada na entrada algumas vezes. Duas vezes, pediram que eu lacrasse a sacola, colocando-a dentro de um saco plástico, para que eles tivessem certeza que eu não iria roubar nada do mercado. Tive de explicar, pacientemente, que não ia lacrá-la, já que estava usando a sacola porque não queria usar mais plástico. Mas isso foi anos atrás. Acontece que os supermercados só estão olhando pra essa questão agora, e alguns estão mais adiantados que outros. Portanto, nada impede que nós, consumidores, eduquemos os mercados a respeito do que queremos e esperamos deles.
Eu já conversei com a gerente do mercado que eu vou quase todo dia, a respeito. É o mais perto de casa, portanto se faltou farinha para o bolo, eu passo lá. Se acabou o sabão em pó, eu passo lá. Etc. Mas os caixas tinham uma mania irritante de colocar imediatamente, e mecanicamente, os produtos em sacolas plásticas. Eu sei que é preciso ser rápido, para não formar filas, e eles são treinados para isso. Mas isso criava uma situação muito chata, e mais demorada até, pois eu nem tinha tempo de tirar a ecobag da bolsa, e os produtos já estavam acomodados em sacolas plásticas. Aí eu tinha de transferir os produtos de dentro das plásticas para a minha sacola de tecido. Quando eu conseguia avisar antes, que “Não precisa de sacola, obrigada”, era indagada se “Não precisa mesmo?” “Tem certeza?” “Pelo menos o queijo branco, ele vai sujar a sua bolsa” e eu tinha de responder que “Não mesmo, obrigada, não precisa, tudo bem, pode sujar, que eu lavo”. Parece um aborrecimento pequeno, mas essa situação se repetiu por meses, e já estava me fazendo perder a vontade de ir ao mercado. E eu sabia que não ia mudar, a não ser que alguma coisa fosse feita. Então conversei com a gerente. Hoje em dia, eu tenho sim de avisar -rápido- que vou usar a minha própria sacola, mas não precisei mais tirar produtos de dentro de sacolas de plástico. Além disso, esse mercado agora vende sacos de lixo biodegradáveis, vários tipos de ecobags, e tem um sistema de desconto que incentiva o uso de sacolas retornáveis.
O que eu estou querendo dizer é que: Sim, às vezes pode aparecer alguns aborrecimentos ao usar ecobags, mas é muito fácil contorná-los. Os mercados vão se adaptar a essa nova demanda, e ajuda se os clientes com essa nova expectativa se fizerem visíveis. Da mesma forma, é preciso pressionar para uma melhor organização de aterros de lixo, um maior e mais eficiente alcance dos programas de reciclagem, etc. Se ecobags não são mesmo pra você, ainda é possível pensar em outras formas de Reduzir, Reutilizar e Reciclar.
3 comments 31/08/2009
Como usar ecobags
Em uma semana, li em duas colunas de revistas diferentes, e em um blog, dúvidas a respeito da relevância das ecobags. Eu acho que isso tá acontecendo porque agora elas estão “na moda”. Então eu vou explicar aqui como eu uso. Não são regras nem nada, é só a forma que eu encontrei de usar, e você pode descobrir a sua.
Primeiro, tenho de explicar que eu moro sozinha. Portanto, a quantidade de lixo produzida no meu apartamento é bem pequena. É, inclusive, menor que a quantidade de sacolas de plástico de mercados, padarias, farmácias e lojas em geral que eu juntaria, se eu não usasse ecobags. Eu sei disso porque eu já cheguei numa situação em que os meus armários da cozinha estavam lotados de sacolas de plástico. Eu usava as sacolas para embalar o lixo, mas isso não era suficiente para manter um fluxo equilibrado. Porque em qualquer lugar que eu vou, aqui em SP, eu ganho uma. Mesmo se for pra carregar uma caixinha de remédio pra dor de cabeça. Ou maçãs da Turma da Mônica que já vêm dentro de um saquinho com alça. E se você tenta economizar nas sacolas do mercado, e pede pra colocar tudo em uma só, o que os caixas fazem? Colocam a sacola cheia dentro de outra, “pra reforçar”. Então eu passei a levar uma sacola de feira toda vez que ia ao mercado, e a recusar quando fazia compras pequenas na farmácia e na padaria. Enquanto isso, fui usando as sacolas que já estavam no meu apartamento para embalar lixo, até que um dia, tcharam! Elas acabaram. Hoje, o meu apartamento ainda tem uma ou outra sacola plástica que aparece quando amigos vêm me visitar. Ou quando eu me esqueço de levar a minha ecobag pra algum lugar.
E o que eu faço com o lixo, agora? Bom, depois que eliminei as sacolas de plástico, tive de comprar sacos de lixo. Eu compro os biodegradáveis. Sim, são bem mais caros. Mas, como a quantidade de lixo produzida aqui é pequena, um pacote dura bastante. E, se mais pessoas passarem a comprar biodegradável, mais demanda vai diversificar a oferta, e eles vão ficar mais baratos. Eu sei de um supermercado na Vila Madalena que usa sacola de plástico biodegradável, então essa pode ser uma alternativa. O problema é que eu tenho lido por aí que os plásticos biodegradáveis não se decompoem 100%, na verdade. Uma boa alternativa é usar sacolas de papel e folhas de jornal para embalar lixo seco, lixo de banheiro, e cocô de gato e cachorro.
Eu tenho uma sacola de tecido com tamanho perfeito para compras menores tipo pão, leite, ovos. Essa eu deixo dobradinha dentro da bolsa que eu vou usar no dia. Aí, eu tenho uma maior, de palha, que comprei por 15 reais no Mercado Municipal. Já estou falando onde eu comprei, porque sempre me perguntam. Eu uso para compras maiores. E para compras bem maiores mesmo, tipo aquela compra “do mês”, eu uso, além dessa, uma sacola de feira dessas coloridas de plástico. (Que eu comprei por 10 reais numa feira.) Essas maiores não precisam ficar dobradas na bolsa, portanto escolhi materiais mais encorpados. E se cair iogurte no caminho pra casa, é só limpar com um pano. Aliás, eu tenho de avisar uma coisa: uma hora, vai cair iogurte na sua ecobag. Ou suco, ou o que for. Eu jogo a minha sacola de tecido na máquina de lavar junto com a roupa suja. E ajuda que ela é de algodão cru, e não um tecido super bonitinho e estampado e que vai desbotar com tantas lavagens.
Bom, eu não costumo fazer compras grandonas, porque eu acho mais barato ir comprando conforme a minha necessidade. Além disso, legumes e verduras eu encomendo a cada 15 dias de uma dessas empresas de orgânicos. Então é claro que, conforme as suas necessidades, o tipo e o número de ecobags variam. Se você pesquisar, vai achar vários modelos por aí. Você pode, inclusive, fazer a sua. Eu quero arrumar mais uma sacola de compra pequena, pra quando a oficial estiver lavando. Mas o meu objetivo, agora, é me livrar das sacolas de papel de lojas de roupas, que estão tomando conta dos armários da minha despensa. Algumas são super bonitas, mas não precisa entregar uma camiseta enrolada em papel de seda, dentro de uma caixa de papelão, dentro de uma sacola de 70cm de largura, né? Eu tenho uma bolsa grande de lona de algodão que uso em cursos de moda, quando a gente tem de carregar tecidos, réguas grandes, etc. Decidi que vou usá-la na próxima vez que sair pra compras roupas, livros, presentes, etc. Esse tipo de ecobag, ou shopping bag, tinha na exposição organizada pela Lilian Pacce, em 2007, que acabou de virar livro. Pelo que eu lembro, algumas bolsas eram feitas de materiais mais nobres e mais difíceis de limpar, tipo couro.
Na dúvida, lembre-se dos três Rs do consumo sustentável: Reduzir, Reutilizar, Reciclar. Eu comecei reduzindo as sacolas de plástico, e agora estou reutilizando as minhas ecobags. Outro exemplo: se a sua casa (como a minha) produz pouco lixo, tente criar o hábito de usar os sacos plásticos em sua capacidade máxima. Não leve um saquinho meio vazio pra fora só porque tá na hora de jogar o lixo, sabe? Nem sempre a gente pode praticar os três “erres”. Mas começar por um já é ótimo.
5 comments 28/08/2009
Josephine the Plumber
Durante a Segunda Guerra, o número de mulheres trabalhadoras mais que dobrou, nos EUA. Faz sentido, porque os homens estavam no exército, e alguém tinha de trabalhar! Uma imagem icônica da época é o poster “We Can Do It”, de 1942, feito por J. Howard Miller, um artista que trabalhava pra companhia elétrica Westinghouse.
Esse poster é muitas vezes chamado de “Rosie the Riveter“, que é uma expressão usada para as mulheres trabalhadoras da época. Elas assumiram cargos considerados masculinos, principalmente em fábricas (rivet é rebite). Infelizmente, após a guerra, as mulheres trataram de voltar para suas casas e ter muitos filhos, como descrito brilhantemente por Betty Friedan em Mística Feminina. Mas eu não conhecia a Josephine the Plumber – Josephine, a encanadora! Interpretada pela atriz Jane Withers, a personagem estrelou comerciais de TV e anúncios impressos para o produto de limpeza Comet, durante os anos 1960’s e 1970’s.
Tá que os anúncios dâo um jeito de assegurar que a Josephine apesar de encanadora, é feminina, em momentos como “Estilo do lado de fora e músculos do lado de dentro” e “Cá entre nós, garotas, eu não conseguiria manter a casa sem [Comet]“. Mas, gente. É uma mulher. Que trabalha com encanamento. E essa mulher com esse trabalho tão “masculino” tá vendendo um produto, em um anúncio. Não é lindo? Não seria legal se tivesse uma garota-propaganda assim, hoje em dia, no Brasil?
Obs: O corretor ortográfico tá dizendo que não existe a palavra “encanadora”.
Obs2: O blog do Flickr tem uma coleção bem legal de Rosie Riveters.
3 comments 26/08/2009
Astrocats
Eu estou sem tempo pra escrever um post. Acho que o próximo vai ser uma continuação sobre “masculinidade”, semana que vem. Enquanto isso, fiquem com essas fotos adoráveis que eu juntei. Eu dedico esse post pra Lola, que disse que não consegue nem imaginar como seria um gato astronauta. Ora, é só dar uma procurada no Google Images!

Não me perguntem de onde surgiu a idéia de um “astrocat”. Eu também não sei. Eu sei que é muito engraçado. Agora, se você quer saber como é a Astrocat deste blog… Eu até tentei tirar uma foto, mas ela ficava escondendo o rosto com as patas! E o mistério continua.
Astrocat says: No flash plz
9 comments 20/08/2009
Da masculinidade

Masculino. É o antônimo de feminino. Para nós, o Sol é masculino e a Lua é feminina. Na mitologia egípcia, o deus Ra levanta toda manhã iluminando a humanidade. Mas na mitologia japonesa, a deusa Amaterasu representa o Sol. Que estranho pensar em uma Sol! Então o que determina se uma coisa, ou uma pessoa, é masculina?
O fotógrafo americano Chad States produziu uma série de fotografias intitulada “Men at their most maculine” ou “Homens em seus momentos mais masculinos”. As fotos estão disponíveis em seu site (alerta NSFW – alguns fotografados estão nus), e aqui tem uma breve entrevista onde ele explica que não conhecia nenhum dos modelos previamente. Ele colocou um anúncio na Internet, e foi à casa de quem respondeu. Ele diz que entre os modelos estão homens, mulheres e trangêneros, e eles próprios escolheram as roupas e o cenário. Embaixo de cada foto, tem uma citação dos modelos falando da própria masculinidade. E é aí que a gente vê como a palavra masculino tem um significado diferente, pra cada pessoa. Tem gente que diz que a masculinidade é inata. Tem gente que diz que é uma atitude, uma forma de agir, de se portar. Tem gente que iguala masculino a homem, e a macho. Tem gente que relaciona a competitividade. A roupas masculinas. A se sentir bem em seu próprio corpo. A homens gays. A “cuidar das mulheres”. Engraçado que muitos estão usando terno. Mas a minha foto favorita é essa aqui:

Se eu tirasse uma foto pra série, eu acho que ia querer estar segurando uma ferramenta, também. A máscara é muito legal! Mas eu acho que eu me sinto mais masculina na academia, talvez. Não sei. É um momento de negação da feminilidade. Eu tenho de levantar esse peso e não me interessa se meu cabelo tá bagunçado, se eu to suando em bicas, se eu faço careta. Além disso, eu não sei o que acontece, que uma em cada três vezes que eu saio com roupa de academia na rua, um cara faz um comentário. Isso quer dizer, toda semana. Então eu já saio pronta pra rosnar. Pra ser mais “macho” que ele. Enfim.
O Chad fala, na entrevista, que o objetivo dele não é encontrar uma resposta para o que é a masculinidade. Ele quer explorar esse assunto, e acrescenta que questionar publicamente a própria masculinidade é bem incomum nos EUA. Aqui também, né? Pra mim, essas várias definições que ele encontrou mostram bem como uma coisa rígida, que é considerada um padrão social ou uma característica inata, pode ser fluida e ter vários significados na esfera pessoal. Faltou fazer uma série “Mulheres em seus momentos mais femininos”.
7 comments 13/08/2009











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