Archive for Junho, 2009
Pela diversidade de corpos
Fiquei sabendo desse BMI Project, que tem uma galeria de slides no blog da Kate Hardling, e outra no Flickr. BMI é Body Mass Index, o nosso Índice de Massa Corporal (ou IMC). Ele classifica pessoas como “abaixo do peso”, “saudável”, “sobrepeso” e “obesidade”. O cálculo é super simples, basta dividir o peso (em kg) pela altura ao quadrado (em m). Se o valor der entre 18.5 e 24.9, parabéns, você é uma pessoa saudável. Se o valor for menor ou maior, prepare-se para uma vida de dietas, culpa, e muita gente enchendo o seu saco.

Segundo o meu IMC, eu estou abaixo do peso, e ainda pode-se dizer que estou subnutrida. Mas segundo a última medição de gordura corporal que eu fiz, eu sou uma pessoa normal, saudável. A questão é que o IMC é um cálculo rápido que serve de referência para exames futuros que vão realmente determinar a sua saúde. E só quem pode fazer esses exames é o seu médico. Não dá pra determinar se uma pessoa é saudável só pelo IMC, e muito menos só de olhar pra ela.

É por isso que, quando houve a discussão de se exigir um cálculo de IMC das modelos nas Fashion Weeks, eu achei que foi um desserviço. Porque não se falou em diversificar a passarela. Só se falou que as modelos estavam tão magras que pareciam doentes. Impedir uma modelo que tem IMC de 17 de trabalhar não vai fazer com que modelos que tenham IMC de 24 ou 30 consigam emprego. Não vai. A Gisele Bündchen é considerada uma modelo curvilínea, bronzeada, a cara da saúde na moda. Esse é o máximo de curvas que você vai ver numa passarela, se a exigência for apenas um IMC saudável.

Eu acho que a gente tem de exigir é diversidade. De raças, de corpos, de tudo. Com exclusão, só se consegue mais exclusão. Excluindo um padrão (magra heroin chic), só se substitui por outro (magra “saudável” curvilínea), igualmente inalcançável.

Eu sei bem como é inalcançável. Eu sempre fui magra, desde que nasci. Meus pais são magros. Durante toda a minha vida eu acreditei que ser magra era um problema que eu tinha de resolver, então passei a comer compulsivamente os alimentos mais gordurosos e açucarados que eu podia encontrar. E eu nunca engordei. Mas! Eu desenvolvi uma gastrite, contra a qual estou lutando até hoje. Daí que eu acho que saúde não tem cara, não tem corpo. E a gente tem de focar em comer alimentos saudáveis, manter hábitos saudáveis, e não em parecer saudável.

3 comments 29/06/2009
Quando feito à mão é mais rápido
A Kathleen Fasanella, do blog Fashion Incubator, está escrevendo uma série de posts (1, 2, 3 e 4) sobre como começar uma produção caseira de roupas. Está muito bom, recomendo pra quem entende inglês. No último post, ela fala que prefere o tipo de produção em que uma pessoa é responsável por todos os processos da peça. Ela chama isso de handmade, ou one-pice production. É assim que os produtos da Etsy devem ser feitos, por exemplo. Eu conheço confecções em que a Costureira Piloto, ou seja, a costureira que faz as peças de teste, trabalha sozinha na roupa. Quando essa roupa está pronta, ela serve de referência para as outras costureiras, que vão fazer a produção em massa. Aí, vamos supor que é um vestido, e que tem cinco costureiras. Uma delas faz os acabamentos. A outra prega os botões. A outra, a gola. A outra, os bolsos. E a outra costura a parte da saia à parte de cima. Vestido pronto. Esse procedimento pode até ser bem rápido, quando bem coordenado, em confecções grandes. Mas se você está começando uma produção pequena, com poucas pessoas, esse modo de dividir as tarefas, na verdade, leva mais tempo. Ela postou o link pra este vídeo incrível que demonstra isso. Vale a pena ver, até quem não entende inglês.
A produção em massa também tem a desvantagem de ser mais difícil de identificar erros antes das peças ficarem prontas. Por exemplo, um acabamento mal feito lá no começo pode passar desapercebido. E aí, quanto já tem uns 20 vestidos prontos, você percebe que essas peças estão justas demais. Pra descobrir o que deu errado e consertar, é mais tempo perdido e dor de cabeça. E eu nem preciso dizer que tem confecção que não conserta direito.
Bom pra refletir e dar mais valor às roupas feitas em ateliês de costura, de alfaiates, ou de marcas pequenas, né?
Add comment 26/06/2009
Por uma semana de moda pra brasileiro ver
Só mais uma coisa sobre o Ronaldo Fraga. Porque ele falou do sonho latino de tentar a vida nos EUA. E como a gente pode se divertir por aqui, mesmo. Eu achei tão legal que ele falou sobre isso, porque eu tenho a impressão que as marcas do SPFW se inspiram nas Fashion Weeks dos EUA e da Europa, na tentativa de ganhar importância internacional. Eu acho que é por isso, também, que tem tantos modelos brancos. Eles ficam querendo dizer “Olha pra mim, Europa, eu sou como você!” (quando não dizem “Olha pra mim, como eu sou exótico!“). Tem sempre muita preocupação com o olhar do Outro, o Estrangeiro. Aí o Ronaldo apresentou essa coleção super rica de estampas, cores, música, mostrando que a América Latina é bonita, também. Importante dizer que várias marcas usaram elementos brasileiros, e eu espero que isso não seja só pra francês ver, e que elas continuem usando nas próximas coleções.
2 comments 24/06/2009
…e de repente o mundo acabou.


Todo mundo que gosta de moda quer ter uma roupa do Ronaldo Fraga. E os desfiles são tão divertidos, porque ele conta uma história, mesmo. É só prestar atenção pra entender. E as peças são tão bem acabadas, e cada detalhe é bem pensado, como as rendinhas escondendo o overloque. Ah, só pra dizer. Que é meu favorito.
*Fotos do Modices.
Add comment 24/06/2009
Paulo Borges, comediante.
[Sobre as cotas]“No mundo global, essa é uma discussão cafona”, disse Paulo Borges, criador do evento, em coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (16).>>>>>
“Meu namorado é negro, meu filho é negro, mas essa medida é uma hipocrisia. É coisa para inglês ver”, declarou Paulo Borges, diretor da semana de moda. >>>>>
2 comments 19/06/2009
Parênteses
Moda pode ser só Moda ou Design de Moda. Design é uma arte que se usa. Arte é inútil.
Pode-se dizer que uma obra de arte tem elementos da moda. E que uma coleção de moda tem elementos da arte. Existe arte fashion. Moda artística. As duas coisas podem se entrelaçar lindamente. Mas são duas coisas. Diferentes.
Se você acha que não devemos “incomodar” um estilista com opiniões sobre sua “arte”, que dele não se deve cobrar responsabilidade social, e que sua “obra” “transcendental” é feita apenas para ele mesmo, então eu te recomendo esta história:
Além do mais, seguindo esse raciocínio, um desfile não seria a obra de arte, seria o vernissage.
Add comment 18/06/2009
Don’t be a jerk about it
Duas das principais agências de modelos do país, a Ford e a Way, dizem, porém, que não se preocuparam em aumentar o número de negros em seus castings depois do acordo da SPFW com o Ministério Público. “Já temos negros. Sempre tivemos”, diz o diretor da Ford Models, Marco Aurélio Rey.>>>>>>
Ok. Sempre tiveram. Mas não o suficiente. Eu já tive roupas desfiladas para a SPFW. Era um evento de novos talentos, que não fez parte do calendário oficial, mas abriu uma das temporadas. E teve estrutura de desfile de SPFW, inclusive com modelos dessas agências. Eu tinha direito a desfilar cinco looks masculinos, e decidi que pelo menos um modelo deveria ser negro. Pelo menos. Mas, no casting, eu vi que seria quase impossível. O clima da coleção não combinava com homens muito musculosos, e as roupas nem foram feitas para esse biótipo, não cabiam mesmo. Aí, pra achar um modelo negro magro, foi difícil. Mas não é que não existe homem negro magro. Não vamos ser babacas. É que o estereotipo negro=músculo vende mais. Mentalidade escravista, etc. Aí, no meio de um monte de musculosos, apareceu um modelo magro, perfeito pra coleção. Parecia até com os meus croquis! Então tava resolvido, quatro brancos e um negro. Eu escolhi um “pardo” também, mas o stylist não gostou dele, e enfim, foi isso. Só que, no dia da prova de roupas, o modelo-negro-que-parecia-os-meus-croquis não foi! Acontece, às vezes modelo tem emergências pessoais também. Eu não tinha liberdade pra contratar outra agência (especializada em modelos negros) porque os meus patrocinadores já tinham escolhidos essas agências “top”. Aí acabou que os meus cinco modelos eram brancos. E o desfile foi lindo e tals, mas eu senti falta de diversidade. Que é pra isso que servem as cotas, injetar diversidade. Chega da explicação babaca de que homem negro é musculoso e mulher negra é bunduda. Procurem direito, agências.
3 comments 17/06/2009
Conteúdo e preparo
Folha – Mas roupa com identidade forte vende bem no Brasil?
Alvarenga – Você só tem duas formas de vender: ou preço ou identidade. O que o mundo respeita é isso. O meio termo não quer dizer nada. Precisamos acertar, então, os nossos calendários e atrair para os negócios pessoas mais bem preparadas. Na moda brasileira, ainda tem aquela coisa de o estilista dizer: “A mamãe acha que eu tenho bom gosto, que eu sou genial”. Não é bem assim. Para tudo que você faz na vida, tem que ter conteúdo e preparo. O estilista, o suposto ou pretenso artista -pois você tem que questionar a legitimidade de tudo-, normalmente é meio prepotente e meio preguiçoso. Ele não gosta de por a mão na massa. Tem muitos desse tipo no Brasil.>>>>>>
2 comments 16/06/2009
Feliz dia dos namorados!
7ª Caminhada Lésbica
13 de Junho, a partir das 13h
Avenida Paulista (concentração em frente à Praça Oswaldo Cruz)
13ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo
14 de Junho, a partir das 12h
Avenida Paulista (concentração em frente ao MASP)
Add comment 12/06/2009
O mau gosto e o bom gosto
A esta altura, você já deve saber que a PepsiCo teve um anúncio sustado pelo Conar, recorreu da decisão (por quê?), e teve o anúncio liberado. Se não, dá uma lida aqui, e aqui. E tem um post ótimo da Marjorie Rodrigues sobre isso. Lembrando que o anúncio do Giraffas “Já Peguei” também foi condenado pelo Conar, na mesma reunião.
Mas eu queria falar do mau gosto. Veja, por exemplo, os comentários deixados por leitores no site do Clube de Criação de São Paulo, a respeito da primeira decisão do Conar:
“Sou gay e não acho a campanha do Doritos ofenciva, porém a do Girafas é extremamente de mau gosto e apelativa.”
“com a sustação de giraffas eu concordo. é uma peça apelativa e de péssimo gosto mesmo. mas de doritos, nada a ver.”
“Um comercial não deve sair do ar por ser de mau gosto ou sem graça (motivos subjetivos) e muito menos por ser apelativo (todo comercial é apelativo, oras); ele deve sair do ar por ofender ou discriminar alguém! Não acho que as Giraffas façam isso: as feministas não deveriam se sentir ofendidas e sim as girafas fêmias, rsrs.”
O terceiro comentário citado tava indo bem. O Conar não deve ter como fator decisivo o mau gosto. Mas se a gente acha que alguma coisa é de mau gosto, é bom pensar por quê. Pra quem não viu o comercial do Giraffas, é assim: duas girafas com voz masculina estão lendo o cardápio da rede de fast-food. Um deles diz sobre uma das opções, “Já peguei”. Isso se repete algumas vezes, até que o girafa “pegador”, ao ser indagado a respeito de uma opção nova do cardápio, diz que essa, ele ainda está comendo. Pra arrematar, o girafa não-pegador sai de plano, e o girafa pegador diz: “Trouxa!”
Mau gosto por quê? O conteúdo do anúncio é sexual, apresentado de forma ambígua, de duplo sentido. Pra mim, nem é tão ambíguo assim, porque o primeiro sentido que me vem à cabeça em “já peguei” é o sexual. Mas ok. Até aí, tudo bem falar de sexo.
A justificativa do Conar é que o anúncio é voltado para crianças. As girafas são mascotes da rede, e são apresentadas no anúncio como bonecos de pelúcia. O Giraffas oferece pratos infantis, e concorre com o MacDonald’s. Eu já fui algumas vezes em uma das lojas e sempre tinha famílias com crianças lá. Nada mais que justo pedir pro Giraffas evitar carregar sua publicidade de conteúdo sexual, uma vez que seu público alvo é em parte infantil. Nem tem o que discutir.
E eu acho que tem mais um problema aí. Tem dois girafas, o “trouxa” e o “pegador”. E o anúncio incentiva a atitude do pegador. O importante é que ele come todas. Então o conteúdo não é só sexual, é machista também. Ele reforça e glorifica o estereótipo de homem másculo sedutor. E isso, veja bem, pra crianças. Enquanto elas ainda estão formando seus conceitos do que é masculino, o que é feminino, de como um homem deve se comportar. E o girafa que não come todas é trouxa. E ninguém quer ser trouxa, não é mesmo?
Eu acho que dizer que uma coisa é de mau gosto é uma reação inicial. A gente sente que alguma coisa está errada, incomodando. O importante, nesse momento, é pensar em por que a gente teve essa impressão. Pra mim, incomodou demais o conteúdo machista. Pra mais pessoas, incomodou o conteúdo sexual. E o Conar só sugeriu a retirada do ar por causa do público infantil da marca. Se os clientes fossem só adultos, dificilmente seria feito alguma coisa.
O caso do anúncio dos Doritos é diferente. Porque muita gente não teve essa primeira impressão. Muita gente achou até engraçado. Mas só porque o anúncio não te ofendeu pessoalmente, só porque você não teve essa reação inicial de rejeição, não quer dizer que o conteúdo do anúncio não é ofensivo. Quer dizer apenas que você achou de bom gosto. Ou seja, que os valores do anúncio estão de acordo com os seus. Mas é importante, sempre, ir além dessa reação inicial – no caso, uma reação positiva que revela uma tolerância a certo grau de discriminação por orientação sexual. Porque a música YMCA é um ícone gay. E o anúncio diz que não se deve dançar ao ouvir uma música gay na frente dos amigos. Não estamos discutindo aqui se o personagem em questão é gay mesmo ou não, se os amigos estavam só surpresos ou se são homofóbicos, porque não importa. Como o comercial do Giraffas, esse anúncio está perpetuando um estereótipo de homem másculo, de como um homem deve se comportar. E incentiva a supressão de comportamentos diferentes desse estereótipo. É por isso que outras tantas pessoas acharam esse comercial da Doritos de mau gosto. Porque ele diz que a gente não deve se dar a liberdade de ser diferente.
Pra mim é muito claro que a PepsiCo e o Giraffas não querem clientes diferentes do padrão privilegiado. Eu já não sou mais cliente da PepsiCo faz um tempo, quando descobri que tenho gastrite. Mas tem uma loja do Giraffas aqui perto de casa, que eu frequentava. Os pratos de lá quase não têm tempero, então não me fazem mal. Mas ultimamente eles resolveram discriminar os clientes vegetarianos. Eu sempre pedia um prato sem a opção de carne, mas agora não pode. Ou seja, você tem de sair do balcão com um pedaço de carne, mesmo que seja pra jogar no próximo lixo. Da última vez que eu fui, dei o grelhado para um amigo. Mas fiquei pensando, por que dificultar o pedido dos clientes vegetarianos? Aí eles veiculam um anúncio desses. E chega, eu não sou mais cliente do Giraffas, também.
2 comments 09/06/2009

Follow on BlogLovin'
